jornalismo

Do segundo dia com Eliane Brum em Curitiba

_Em sua Oficina de Reportagem, Eliane Brum discorreu sobre uma série de situações sobre a virtude da escuta. Destacou a importância essencial do bom repórter: saber escutar, mas não apenas o que o entrevistado diz, mas até o seu silêncio entre as frases. Escutar o que não foi dito, porque mesmo quando alguém deixa de falar, está comunicando algo. Brum continuou nos oferecendo uma rara lição: escutar até o que o ambiente, as roupas, os gestos, olhares, o peso, a textura o ritmo do que a pessoa e o ambiente está “dizendo”.

_Existe uma linguagem dita também pela casa, onde sua localiza, a rua, que barulho os cachorros da vizinhança fazem, a disposição dos quadros em uma sala aparentemente simples pode oferecer respostas mais profundas do que aquelas que se tem quando perguntamos algo ao entrevistado. Em suas lições, Brum ilustrou com poucas fotos, mas repletas de histórias e desdobramentos que exigiram deixar de lado as anotações para simplesmente ouvir o que ela tinha a dizer. E nisto, residia o exercício de sua valorosa condução da oficina.

_Muitas coisas são contadas pelo silêncio, segundo Eliane. É extremamente poderoso que o repórter torne-se “invisível”. Precisa escutar e olhar sem interferir, partindo de um “não-saber” para não comprovar as auto-ilusões que geralmente trazemos das coisas, ou as teses repetidas na academia ou nas redações jornalísticas. E no relato da história de uma personagem que estava em tratamento de câncer, que Eliane Brum acompanhou durante três meses, ela foi obrigada a “interferir” na história. E isto teve que ser dito em sua reportagem, para manter o compromisso com o relato fiel da realidade. Pra variar, foi uma quinta-feira abafada, depois chuvosa, e finalmente com um vento frio. Mas dentro da sala do terceiro andar da BPP, Brum estava à vontade, com os pés protegidos por um par de meias escuras com bolinhas rosas, enquanto suas botas de salto grosso e alto descansavam embaixo da mesa.

_Brum trouxe uma visão rica sobre a pergunta na reportagem. A pergunta, em si, é uma forma de controle, porque direciona as respostas do entrevistado. Sugeriu que deixemos de lado a tentação de fazer a primeira pergunta, substituindo por um  “me conta?”, ou “por onde você quer começar?”. Um trecho de um filme que Brum destaca, seguiram-se duas perguntas perturbadoras: “há respostas satisfatórias para todas as perguntas, mas o que você aprende com as respostas?” e “O que você pergunta às vezes revela mais sobre você mesmo do que as respostas em si”.

_Antes de exibir o documentário “Severina”, Eliane Brum continua a apresentar a sua história – o que permite que suas reflexões atinja os participantes da oficina de um jeito muito pessoal –, e compartilha assim as lições que cada uma das suas reportagens lhe trouxeram. Se um repórter “se coloca” no lugar do outro, não irá escrever para magoar seu personagem. Nos questionou sobre “limites éticos”, nos recomendando não pedir ao outro o que não seríamos capazes de dar ou de fazer. Brum fala da diferença entre ouvir e escutar, e da importância de se “aprender a ver”, treinando a capacidade de ir além das aparências e da obviedade das situações cotidianas. E que mesmo em uma pauta “fraca”, é possível obter uma boa história que mereça ser contada para o leitor. E que um bom repórter [sim, Eliane Brum não usou nenhuma vez “jornalista”] não pode perder sua capacidade de indignação. E que é urgente, quando crises pessoais o atinge, se perguntar com sinceridade se você tem tudo o que precisa, porque se faz o que faz, lembrar-se dos seus “porquês” e entender o que você faz, torna-se aquilo que você é.

_Anotei uma série de coisas que gostaria de perguntar a Eliane Brum. Mas os 24 minutos do documentário dirigido juntamente com Debora Diniz causaram um silêncio tão profundo e constrangedor no seu final, que demorei pra me levantar e me despedir dela. Os personagens centrais do documentário, Rosivaldo, marido de Severina, descobrem que o filho deles vai nascer com anencefalia. Severina é internada em um hospital do Recife com um feto sem cérebro dentro da barriga, em 20 de outubro de 2004. Porém, no dia seguinte em que seria iniciado o processo de interrupção da gestação, os ministros do STF derrubaram uma liminar que permitia que mulheres como Severina antecipassem o parto quando o bebê fosse incompatível com a vida.

_A edição do documentário oferece um retrato fiel e apavorante de como as coisas funcionam no Brasil. Intercalando o sofrimento de um casal pobre, nordestino, analfabetos agricultores sem terra, são tratados com ignoriancia pela rede pública de saúde, que os joga de um lado a outro com papéis ininteligíveis para os dois. E o discurso empolado dos ministros do STF, que decidem sobre a vida de milhões de pessoas sem se dar conta disto, está em uma esfera quase surreal. Severina sabia que seu filho nasceria morto, e seu direito de cessar este sofrimente arrasta-se por mais quatro meses, e de um procedimento abortivo torna-se um parto de um natimorto. As cenas finais deste documentário são profundamente chocantes não pelo que mostram, mas pela história real de brasileiros que estão à margem da vida, das leis, da própria justiça. E Severina, em vez do berço, precisa colocar seu filho em um pequeno caixão branco.

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