jornalismo

Do primeiro dia com Eliane Brum em Curitiba

_Tive o privilégio de participar da Oficina de Reportagem promovida pela Biblioteca Pública do Paraná, numa tarde abafada em um 7 de dezembro. Em seu primeiro dia, Eliane Brum, premiada jornalista, escritora e documentarista, compartilhou uma profunda reflexão sobre o olhar e a sua importância para o jornalista construir reportagens que precisam ir além do que já se sabe. Foram um sem número de ideias que surgiram diante do seu relato, preocupada em perceber o que vale a pena ser contado. A caneta não acompanhava a velocidade de sua fala pausada, mas profundamente repleta de experiências.

_Mesmo avisando os 19 participantes presentes – mulheres em sua maioria –, de que não estava ali para dar certeza de nada, compartilhou fatos que permitiram enriquecer sua carreira como jornalista, através de reportagens que ofereciam o extraordinário escondido na rotina de fatos comuns. Para quem estivesse ali atrás de fórmulas prontas, por exemplo, destacou elegantemente que elas permitem sim a produção jornalística, mas que entrega sempre tudo igual. E falando em elegância, foi direta em ressaltar a importância de se chegar antes do horário marcado em qualquer lugar. Além de ser um sinal de compromisso profissional, permite que se “observe” com mais cuidado o ambiente, as pessoas, o que geralmente não pode ser visto rapidamente. Ilustrou este exemplo relatando uma reportagem sobre Amyr Klink publicada na revista Época de abril de 2004. Ao chegar mais cedo no escritório da empresa de Klink, enquanto aguardava para fazer a entrevista, ouviu gritos ao longe, oriundo de uma discussão. A partir desta observação, soube que a expedição tivera problemas e procurou os envolvidos.

_Em quase 4 horas, tive a raríssima oportunidade de compreender que um jornalista não pode enxergar apenas só o que vê. É preciso mudar o foco do olhar, duvidar de tudo, sempre, e recuperar o olhar de espanto, mesmo em situações cotidianas que aparentemente não tem potencial de “notícia”.  Brum compartilhou diversas abordagens sobre seu trabalho como jornalista, como observar com atenção, a partir da periferia, antes de fazer qualquer interferência, deixando de ver o que todos estão vendo para “entender o que você está vendo”. Pude fazer um apanhado escrito de suas observações, como a importância de apurar e checar sempre, com responsabilidade, todas as informações essenciais para a reportagem. Apreender todos os aspectos da realidade ao fazer suas anotações, criando referências que são úteis na hora da transcrição textual, deixando de lado os adjetivos para escrever com substantivos.

_Tenho anotado outras considerações interessantes dela. Se o bom repórter for relaxado com os detalhes, compromete sua credibilidade. E jornalistas não tem autorização para inventar ou fazer julgamentos sobre qualquer coisa. Para fugir da cegueira, é preciso esvaziar-se das próprias verdades para ouvir a do outro, e construir uma reportagem tão repleta de informações checadas com profundidade, que leve o leitor a tirar suas próprias conclusões. O trabalho do jornalista é um documento histórico que, mais tarde, permite a reconstrução da realidade em que foi produzido.

_Na meia-hora final do primeiro dia de Oficina, quando os participantes puderam perguntar mais detalhes sobre sua experiência e tirar algumas dúvidas, questionei-a sobre o papel de mediador do jornalista, onde a internet permite que todos tenham voz e relatem sua história. Eliane Brum destacou que mais do que mediador, o jornalista tem um compromisso com as verdades, pois elas não são únicas. E mesmo que todos possam narrar suas vidas e o que acontece ao seu redor, qual é a relevância disto, porque a realidade, segundo Brum, não é só aquilo que a gente vê.

_Eliane ofereceu uma perspectiva interessante para a atuação do jornalista hoje, devido ao potencial agregador da internet. Destacou o trabalho da Pública, uma agência de reportagem e jornalismo investigativo e papel de Natália Viana com o Wikileaks. Entendi que as diversas oportunidades para os novos jornalistas dependem apenas dele mesmo para construir um novo caminho profissional, que vai além do que hoje é chamado de “jornalismo tradicional”.

_O contato com o trabalho de Eliane Brum me obrigou a rever uma série de ideias mal-concebidas sobre o futuro do jornalismo no Brasil. Além disso, exige que se construa um novo jeito de encarar a profissão de jornalista, tecendo novas responsabilidades sobre a forma de atuação profissional e até mesmo pessoal.  Em um mundo preocupado em rotular tudo para acomodar em caixinhas prontas para consumo imediato, preciso me livrar destas certezas tolas para aprender mais, sempre.

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