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As coisas seriam mais fáceis se eu fosse assim?

_No dia da Consciência Negra, quero esquecer das inúmeras vezes que a cor da minha pele foi critério de julgamento. Quero esquecer que os números de uma pesquisa indicam que 97% dos brasileiros dizem não ter preconceito racial, mas também que 98% dos mesmos entrevistados disseram conhecer outras pessoas que tinham. Se pudesse, queria saber como ficar transparente, de vergonha.

Sério? Porque a cor da minha pele ainda incomoda no Brasil?

_Quero esquecer, neste dia da Consciência Negra, que a cor da minha pele me cause constrangimento quando entro em uma loja de uma grande rede de supermercados de Curitiba. E que o segurança exija que eu deixe a mochila no guarda-volumes, quando entram no mesmo supermercado, e diante dele também, dois estudantes usando uniformes do Bom Jesus, usando mochilas bem maiores. Queria também esquecer de uma letra do grupo O Rappa, que declama “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, ou do cantor de rap Emicida, ao dizer em um de seus versos “ hoje você vai ter que fingir que preto é a sua cor predileta”, e que nas atuais novelas da televisão brasileira, não tem personagens centrais com a minha aparência étnica.

_Quero esquecer, assim como para quem não passa por este tipo de “situação”, que minhas origens étnicas sejam obstáculo para que uma senhora elegante se recuse a sentar-se ao meu lado enquanto esperava atendimento em uma agência bancária, no centro de Curitiba. E ter que ouvi-la dizendo que não gosta de “nego”, para a outra senhora igualmente elegante que a acompanhava, em alto e bom tom. E esquecer seu sorriso muito, mas muito sem graça quando respondi, educadamente, que “nego” era o que estava escrito na bandeira da Paraíba, porque ouvi o que ela disse. Pois estava usando apenas um dos fones no ouvido, em volume baixo para ser atendido quando ouvisse o sinal dos caixas da agência.

_E como hoje é domingo, e tenho toneladas de trabalhos acadêmicos para entregar, queria esquecer, neste dia da Consciência Negra, que na minha sala de aula de uma universidade católica, alguns colegas acreditam que cotas raciais prejudicam o ensino, impedindo “outros alunos” de ocupar estas vagas. Queria esquecer do mal-estar que me causou a declaração de uma senhora que faz a limpeza dos corredores e salas desta universidade, ao me dizer que só outra “pessoa de cor morena pra dizer boa-noite”.

_Queria mesmo esquecer que os resultados de 2010 do Censo do IBGE revelem que a renda mensal média dos homens que se declararam brancos é até 150% maior do que a de negros. Queria esquecer que só depois de 123 anos da Lei Áurea, este mesmo Censo do IBGE indique que a maioria da população brasileira se declare negra ou parda. E que sendo 47 milhões de negros brasileiros, elegeram pouco mais do que 8% dos 513 representantes escolhidos na última eleição. No Senado, por exemplo, existem dois senadores negros: Paulo Paim, do PT gaúcho e Magno Malta, do PR no Espírito Santo.

_Gostaria de esquecer que, neste dia da Consciência Negra, que se uso roupas brancas em todas as sextas-feiras, não ter que ouvir piadas dizendo que é dia de macumba [como se macumba fosse religião, e não um dos rituais das religiões africanas], ou até mesmo de uma namorada, quando contei pra ela sobre isto, e ter que ouvir que eu não tinha cara de médico por causa da roupa branca, mas de massagista de futebol ou de enfermeiro.

_E neste dia Consciência Negra, queria realmente esquecer que dos 16 milhões de brasileiros vivendo em extrema pobreza (ou com até R$ 70 por mês), 4,2 milhões são brancos e 11,5 milhões são pardos ou pretos. E esquecer também que as mortes entre os brancos estão mais concentradas nas idades avançadas, como resultado de câncer. Porque entre os brasileiros negros, morre-se mais entre os jovens de 15 a 29 anos, principalmente entre os homens, por conta de causas externas, como acidentes e mortes violentas. Minha memória me questiona porque apenas dos 10% de brasileiros mais ricos, apenas 20% são negros, ou porque na base da pirâmide social, 73% dos negros fundamentam os 10% dos brasileiros mais pobres.

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Um pensamento sobre “As coisas seriam mais fáceis se eu fosse assim?

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