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Sobre trotes e carroças

> Se não há razão concreta e saudável para a existência dos trotes violentos nas universidades brasileiras, que celebre e resgate valores positivos dos antigos rituais tribais, estamos diante de um crasso exercício de ignorância e selvageria. A passagem da vida adolescente para a adulta pode ser comemorada com a conquista de uma vaga no ensino superior – e concretizada através da aquisição de saberes certificados pelo diploma, em um processo contínuo de construção da identidade do indivíduo como agente de transformação. Então porque os trotes universitários não compartilham, coletivamente, esta passagem de uma forma que prestigie as escolhas inteligentes que irão fundamentar sua ação social?

> Não sou carola e nem tentando vender a postura de “certinho”. Mas defendo o trote enquanto uma ação interessante que insere os calouros no ambiente acadêmico. Questiono mesmo a repetição do constrangimento físico/moral como forma de celebração da estupidez como recompensa. E as tentativas de trotes solidários esbarram no bom-mocismo das instituições, que são incapazes de assumir uma postura mais radical contra os excessos.

>Nas sociedades primitivas, as promessas de respeitar os valores morais eram obrigações indiscutíveis e sagradas, os trotes universitários violentos são vazios em seu seu conteúdo simbólico. Estão mais para uma insanidade coletiva do que o marco para o início de uma nova fase na vida do indivíduo. Se o exercício de trote violento e repleto de equívocos pretende marcar a independência dos jovens universitários, que tipo de cidadão se forma quando a deturpação torna-se regra de aceitação no mundo acadêmico? Nas antigas sociedades tribais, os homens passam por rituais que envolvem riscos à vida e sofrimentos físicos, com severas provas de iniciação que cumpriam uma função específica. Mas hoje, em uma sociedade que se diz civilizada, e extremamente individualista, essas figurações simbólicas reafirmam o modus-operandi da ignorância como forma de poder. O constrangimento do outro e a violação das liberdades individuais torna-se o novo estilo a ser seguido.

> A comunidade acadêmica perdeu seu sentido de mobilização [menos pra festas]. Em algum momento da recente história brasileira, o papel dos estudantes como agentes de transformação política foi substituído por um hedonismo sem limites em uma balada open bar, celebrada todos os dias. A busca desenfreada pelo lucro fácil, a idolatria ao ego inflado e o consumismo como símbolo de afirmação pessoal que rege a maioria das relações de mercado, estão no topo da lista dos desejos de uma parcela significativa dos estudantes.

> Nos ritos, ficam marcados as perdas e as conquistas a que estamos sujeitos na vida. E aqui estão dois elementos importantes: sempre estamos mudando, ou melhor, que ganhamos e perdemos simultaneamente. E mais ainda: que não podemos tudo. Como a afirmação dos efeitos positivos que as mudanças promovem em nossas vidas, será que parte dos universitários repetem este comportamento deturpado por toda sua vida, seguindo a trotes largos as carroça puxada pela mediocridade?

> Se ainda não se perdeu o sentimento de indignação, lobotomizamos a inteligência e a consciência quando assistimos à repetição de atos desprovidos de simbolismos construtivos. Quanto ao exercício da ignorância dos trotes universitários violentos, regados a litros de cerveja quente e trilha sonora de quinta categoria, percebe-se a permuta da inteligência pelos abusos de quem ignora o respeito ao próximo.

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