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A velha pretensão

Na visita semanal à referência jornalística do Observatório da Imprensa, redobro minha leitura ao artigo de Alberto Dines [CENSURA TOGADA – O silêncio de Gilmar], publicada no último dia 04 de agosto. De sua impecável clareza ao desancar a postura do magistrado falastrão, o último parágrafo do texto me incomodou.

“A República vive um de seus piores momentos – a única instituição capaz de salvá-la é a imprensa. Só ela é capaz de despertar a sociedade diante das emergências. Ao mesmo tempo em que distrai o cidadão com a enxurrada de irrelevâncias e modismos, também é capaz de embargar esta avalanche de hipocrisia e cinismo.”

Esta argumentação pode ser encontrada na base de excelentes livros que defendem um jornalismo responsável para com seu leitor ou audiência. São defensores de um papel mais social da imprensa e de sua responsabilidade como instrumento democrático. Antes de discordar de Alberto Dines, é preciso reconhecer a lucidez dessas palavras e da verdade que revela ao seus leitores.

O golpe final promovido por Gilmar Mendes contra os jornalistas, decretando o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão também nos revela o quão distante está essa declaração de Dines. Os grandes veículos midiáticos há muito deixaram de lado os nobres princípios que deveriam garantir a qualidade de seu principal produto: a notícia. E os jornalistas se vêem obrigados a atuarem visando interesses secundários à verdade e aos fatos que se escondem nas entrelinhas.

A vítima é a liberdade

A pressão de grupos políticos já tiraram do ar e das linhas dos jornais excelentes profissionais da comunicação, em pleno exercício da liberdade de expressão com a responsabilidade de quem sabe o que está fazendo. Em Curitiba, Gladimir Nascimento foi “dispensado” de seu excelente trabalho na BandNews, em 2008, quando resolveu dizer a verdade sobre a atuação marginal dos deputados empoleirados na Assembleia Legislativa, a respeito da votação de uma projeto de aposentadoria vergonhosa. A última vítima foi a comentarista política Ruth Bolonhese, do Estado do Paraná.

Por mais nobre que seja a atuação ímpar da imprensa, ela é exercida no Brasil por alguns veículos que estão vinculados de maneira acintosa a grupos politiqueiros. Não por acaso, José Sarney, quando presidente da República, presenteou com centenas de concessões públicas seus compadres para garantir a reeleição, em 1987. Mesmo depois de mais de 20 anos, a prática apenas se reproduz, prejudicando a isenção na veiculação de notícias que revelam as mazelas das administrações públicas por todo o país.

Mesmo discordando, e admitindo a nobreza das palavras de Alberto Dines, minha esperança de que uma parcela significativa entenda a natureza da podridão que fecunda no Congresso Nacional será nula. Junta-se a isso à uma silenciosa morosidade que se planta diariamente nas mentes de uma outra parte da sociedade, afogada nos delírios de consumo e de bem-estar material e tecnológico comprados a longas parcelas sem juros.

Certos lugares

Há quinze anos estou pela terceira vez de volta à Curitiba. Desde então, entre o cumprimento dos deveres trabalhistas de contratos que nunca privilegiaram meu tempo, ou que aceitei trocar por alguns reais que nunca eram suficientes, me dou ao exercício de observar uma cidade que mudou, mas que permaneceu a mesma em certos lugares ou costumes.

Uma noite dessas friorentas e chuvosas, esperei por alguém ali perto do terminal do Guadalupe. Era muito tarde para ficar ali. Fui me esconder na lanchonete que fica no meio do ponto final dos ônibus que chegam da região metropolitana. Por um segundo, quando um dos atendentes deixou escapar algo entre os dentes que não entendi, percebi que deveria ter ficado em casa.

Talvez acostumado a atender as típicas figuras do fim da noite, estendeu um pouco mais o olhar sobre mim quando pedi para repetir o que havia dito. Mais aborrecido ainda, recebeu meu pedido por uma bebida de criança com um certo desdém, e com essa atitude voltou à tarefa de encher uma cafeteira tão velha quando um antigo letreiro empoeirado do café Damasco acima dela.

Voltei minha atenção para ficar invisível, sentado. A duas cadeiras brancas dali, uma moça tentava refutar aos apelos de um homem aparentemente bêbado. A conversa era tão clara quanto o copo de cerveja que ela tornava devagar. O sujeito estava indignado porque seu dinheiro, amassado entre os dedos, não era suficiente para se aquecer por meia hora com ela, enquanto na outra mão segurava um copo vazio. Perdi o fim da conversa quando, do outro lado do balcão, um mendigo negro gemia por um cigarro ou esmola ou algo para comer, indo de um lado a outro dos três caras que dividiam outra garrafa de cerveja.

No instante seguinte, o educado atendente jogou um desses panos de pia na direção dele. Ao chamá-lo pelo nome, e repreendido ao mesmo tempo pelo caixa japonês que veio saber o motivo do gesto, reclamou da ladainha de todas as noites que este mendigo fazia. Como eu sabia que ele era um? Não me fiei na irritação do atendente, que em definitivo não estava contente de ficar ali. Mantive um olhar discreto acompanhando sua trajetória até que se escondesse na marquise de uma loja, do outro lado da rua. Antes de vê-lo enrolar-se no cobertor, senti a moça passar atrás de mim, seguida rapidamente de seu frustrado acompanhante e dos olhares de todos ao redor.

Confesso que, depois que meu colega chegou e fomos embora, pensei que escrevendo sobre isso, poderia entender mais da cidade, e de como ela atrai a todos para seu meio. Só esqueço que uma parcela significativa dela se incomoda com o terminal do Guadalupe. Alguns querem transferir a presença indesejada de uma massa de baixo assalariados para longe, transformando o local em uma feira ou um centro de convivência. A Copa do Mundo de 2014 vai trazer algumas mudanças para a metrópole, mas ainda o custo humano disso está longe de ser aferido e devidamente contabilizado.

Enquanto me afastava, alguns cobertores estavam se ajeitando nos bancos de madeira, uma criança passou correndo entre nós, em direção a um carrinho de feira que servia espetinhos suspeitos, enquanto a fumaça deles atingiu em cheio meu casaco.

Gentilli e o bom exercício do preconceito brasileiro

Deu na Folha de S. Paulo, caderno de Informática:

King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?” A frase é de Danilo Gentili, integrante do programa “CQC” (Band). Postada na madrugada de sábado (25 de julho) para domingo no Twitter, a declaração se arrasta numa polêmica que deixou de ser virtual e chegou ao MPF-SP (Ministério Público Federal em São Paulo).

Fique-se sabendo que o MPF-SP arquivou o processo. Mas o estrago segue a velocidade das chamadas “ferramentas sociais” da internet. E no mundo real, o preconceito racial ainda é presente, mesmo que nas entrelinhas, nas pequenas atitudes.

O que talvez Danilo Gentilli tenha se esquecido é o passado escravagista do Brasil. Dos mais de 500 anos de “terra brasilis”, 300 foram sob o regime escravagista. Qualquer referência dúbia contra os negros por estas bandas sempre vai ter uma conotação preconceituosa. Até mesmo o termo “racista” acaba sendo levado em conta somente quando se fala do preconceito contra os negros. Não vou defender os bons argumentos de sempre. Vou deixar perguntas. Quantos políticos negros atuam no Congresso Nacional? Quantos atores negros ocupam papéis de protagonistas nas principais novelas na tv? E quantos aparecem nos comerciais de carros, shampoos, cremes dentais, cervejas, desodorantes, margarinas, refrigerantes, bancos, perfumes, combustíveis? E devo ter esquecido de alguma coisa no meio do caminho.

Não vou sugerir como alguém deva contar suas piadas. Ouvi, certa vez, alguém dizer que justamente a graça delas é brincar com os preconceitos inerentes às pessoas ou situações. Se revelam estereótipos da vida real, talvez sejam fruto da ignorância que muitos invejam de ostentar com orgulho.

Enquanto isso

_O caso do ex-deputado Fernando Ribas Carli, que matou os jovens Gilmar Rafael Yared, 26 anos, e Carlos Murilo de Almeida, 20 anos, em um trágico acidente, está esquecido. Passados 3 meses, uma rápida busca no Google revela mais de 800 mil referências ao seu nome. Mas as duas primeiras respostas levam diretamente para o site do ex-parlamentar. Um bom trabalho de sua assessoria de imprensa, na tentativa de reescrever a história e transformar o crime em um comum acidente de trânsito. Ou será que ninguém se lembra que ele estava alcoolizado, pilotando seu Passat importado a mais de 180 km por hora? Segundo declaração da mãe de uma das vítimas, Cristiane Yared, dado à BandNews FM de Curitiba, o corpo de seu filho chegou ao IML praticamente sem sangue algum. Para quem não acompanhou, a cabeça de seu filho foi encontrada a 20 metros do que sobrara do Honda Fit, enquanto o corpo de seu amigo Carlos Murilo estava prensado debaixo do painel do carro.

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