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da pesquisa

_Voltar para a universidade tem sido uma experiência gratificante, e pra não perder a rima, estafante. Conciliar trabalho com estudos compromete a qualidade do segundo item. Mas não reclamo nem posso ficar no clichê de “coitadinho-nasceu-pobre-tem-que-trabalhar”. É uma benção – literalmente – ter à disposição toda a infraestrutura da universidade que estou cursando para desenvolver o talento inerente. E descobrir outros. As primeiras notas não tem sido as esperadas, e ainda posso recuperar nas seguintes avaliações. Na verdade, ainda não descobri um ritmo melhor para tirar mais proveito das disciplinas apresentadas, e o essencial, toda a vivência que alguns professores compartilham em sala.

_Nesta quinta, forcei um pouco a situação na empresa e pedi a tarde para colocar os estudos em dia e preparar um trabalho sobre Aspectos Contemporâneos. Um assunto espinhoso: apresentar os pontos positivos do regime militar. Na verdade, pedi ao professor que me oferecesse este tema. Para acusar o regime de exceção a bibliografia é completa, sob vários aspectos. Farto material está disponível que acusa, prova e julga com louvor todos os abusos, equívocos, crimes, assassinatos e demais erros cometidos pelos governos militares. Por isso mesmo, a pesquisa foi interessante, e cuidadosa. Não era o objetivo do debate apontar os culpados, mas sim entender o contexto histórico e os motivos que levaram o Brasil a enfrentar 21 anos sob a égide dos homens-oliva.

_Encontrei nos livros do Elio Gaspari um relato histórico, conciso, rico de detalhes que obrigam o leitor a uma viagem profunda a era de chumbo e assistir a todos os meandros dos governos militares. Outra fonte interessante é o trabalho de Thomas Skidmore, publicado em 1988. Relata o cenário político-econômico que antecede o governo de Jango e entrega outros sobre o golpe de 64.

_Não poderia apresentar um texto escrito longo, pois o professor exigira algo mais sucinto para argumentar durante o debate. As cinco laudas foram úteis para o exercício em sala de aula. Além do resumo histórico publicado no final das páginas dos livros do Gaspari. Uma tabela contextualizando datas com fatos políticos, econômicos e culturais, como por exemplo a chegada de Wilhelm August Geisel, 5 anos antes da abolição da escravidão.

_Mas algo sai meio estranho. Há um clima de confrontação na sala de aula assim que o professor determina os lados de “acusação” e “defesa”. Os ânimos se exaltam quando um lado dispara que o regime militar matou “um monte de gente”, impôs a censura para todos os jornais, endividou o país, fez obras faraônicas e censurou toda a imprensa [de novo].
Deste lado, a apresentação de cada argumento era seguida de risos e muxoxos à meia-boca, e mais repetição das mesmas acusações. Sem argumentação. Sem pesquisa. Sem contextualização histórica.

_ A tarefa de defender o regime militar que se oficializou no Brasil no dia 31 de março de 1964 não foi fácil. Ao ponto de impedir uma visão imparcial dos motivos que levaram uma junta militar a depor João Goulart e assumir os rumos políticos, econômicos e sociais do Brasil até 1979.

_Isso me lembra um artigo que li a respeito da qualidade da pesquisa universitária. A falta de memória histórica do estudante hoje. Vive num eterno cotidiano? Tem preguiça de pesquisar? Ou é tudo culpa do Google, com suas respostas quase prontas? Ou da falta de critérios para compreender que é necessário buscar e consolidar as pesquisas nas tradicionais fontes, os livros?

_Tive a impressão, ao levantar a voz impaciente e cobrar da “oposição” fatos com embasamento histórico, de que as chances de vivenciar uma discussão saudável tenham sido deturpadas por um sentimento de revanchismo e defesa de uma liberdade ainda não compreendida, e de que é preciso humilhar o oponente para provar seu ponto de vista, por vezes mal elaborado.

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